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Arnaldo Adnet tem uma história de vida e tanto.
Depois de superar diversas dificuldades pessoais, ele se uniu
a Artur Feighelstein para treinar remo para os Out Games,
evento esportivo que reunirá homossexuais na cidade de
Montreal, no Canadá, em julho e agosto deste ano. Nesta
conversa com o Mix Brasil, ele fala sobre esportes, cultura e
sobre ser gay.
Como vocês se conheceram? Há quanto tempo treinam
juntos? Artur é
grande amigo de um primo meu. Os dois eram colegas na
Faculdade de Arquitetura. Já nos conhecemos há anos e nos
encontramos na Praia (Farme), na noite (Galeria) e mais
recentemente na Lagoa. Artur já rema há anos e é da equipe de
masters do Flamengo. Eu ainda estou na Academia - remo há 1
ano e meio. Havia treinado antes, ainda adolescente, assim que
saí da Marinha, mas por pouco mais de 6 meses. Começamos a
treinar juntos agora, já objetivando os Jogos de Montreal.
O que os motivou a participar do OutGames?
Os jogos
são uma novidade e abrem outras perspectivas para eventos do
gênero. Os outros jogos similares têm mantido uma perspectiva
modernista, de demarcação do espaço gay - o que tem sua
importância, mas me interessa menos. Entendo que os OutGames
prometem uma abordagem mais pós-moderna, com ambiente aberto
de confraternização universal, cultural e da diversidade em
geral. Além do mais, Montreal é uma festa no verão!
A
tal diversidade é fato constatável no desenho urbano da
Cidade. Seus bairros tem espíritos próprios, e pessoas de
variadas tendências circulam por todos eles: os bairros de
Crescent Street, Plateau Mont-Royal, a Cidade Velha, a Pequena
Itália, Chinatown e Quarter Latin. O Village Gay é uma das
áreas mais queridas por todos na Cidade e a noite ferve em um
ritmo muito gostoso. Isso sem falar nos arredores da Cidade,
como Mont Tremblant e a vizinha Quebec, onde se respira um ar
europeu inigualável em toda a América. Ah! Ainda há a promessa
de São Paulo vir a sediar a próxima edição. A cidade é uma das
mais cotadas.
Está tudo pronto para a viagem? O Arnaldo escreveu
que já estão de malas prontas! Estamos
com as inscrições pagas e os bilhetes reservados, mas as
"malas prontas" foram um infame, mas irresistível
trocadilho... afinal é bem excitante imaginar-me circulando
numa Vila Olímpica predominantemente gay! Na verdade estamos
captando apoio para efetuar a compra dos bilhetes e pagamento
da hospedagem. Alguém se habilita? Interessados, favor contactar-nos!
Vocês são filiados à GLIRF? Como é o relacionamento com
a federação? Somos
filiados à GLIRF sim. Fui o primeiro membro da América do Sul
a se filiar. Tive conhecimento da GLIRF na edição do Festival
Mix Brasil de 2004, na Estação Botafogo. Joseph Cruz,
representante dos OutGames, estava na saída do filme Summer
Storm (Sommersturm) - que conta a estória de uma equipe de
remadores gays (Queertrokes). Além dos folhetos de divulgação
dos Out Games, havia outros da GLIRF. Eu tinha acabado de
voltar a remar, mas logo me associei. O Artur se inscreveu
pouco depois. Fui saudado por associados de todo o mundo! O
presidente, Brian Todd, de Los Angeles. ficou muito feliz e
torce para que outros brasileiros se juntem a nós. Somos muito
bem vistos na comunidade internacional.
De quais outros torneios vocês já
participaram? Eu
participei apenas de torneios locais para iniciantes, aqui na
Lagoa. Mas no final do ano passado estive em Belém e me juntei
a remadores do Clube do remo, numa saída pelas águas da Baia
de Guajará, na Foz do Rio Amazonas. Uma experiência e tanto.
Da Lagoa para Montreal - não vão estranhar a mudança?
Quais problemas vocês acham que poderão
enfrentar? Não há
muito que temer (creio eu). O objetivo é a confraternização, a
participação. Nunca fui um grande esportista. Aquele tempo na
Marinha e o ano seguinte foi um período raro em minha vida.
Ainda por cima, sofri um grave acidente aos 29 anos, e passei
por 16 cirurgias, precisando de muletas por 11 anos. Voltei a
remar para evitar a musculação das academias, que meu médico
recomendou, mas que eu nunca cheguei a apreciar. Adorei o remo
e começar os dias na Lagoa Rodrigo de Freitas é um privilégio.
Remar em Montreal será uma experiência excitante, em meio a
uma festa linda! Eu sou agente de viagens e convido os
interessados em participar ou assistir aos jogos a me
procurarem para formarmos um grupo, com possibilidades de
viajarmos juntos pelo Canadá, após os jogos. E-mails para
mim.
Há chances de trazer medalhas para o Brasil?
Depois de
tudo o que passei, já me sinto vitorioso, cada vez que entro
num barco. Traremos medalhas para o Brasil, sim (todos trazem
- mas não contem pra ninguém!). E quem sabe a nossa categoria
nos favoreça e acabemos conquistando um tento melhor? É
possível.
O que é mais difícil: ser gay ou ganhar uma competição
de remo? Arnaldo -
A garotada gay de hoje tem padrões diferentes e ser gay parece
implicar em cuidar do corpo, malhar, essas coisas. Se é
difícil eu não sei. Mas eu acho estimulante combinar as duas
coisas: ser esportista e gay. Não me lembro de ter uma
referência dessas na minha formação. Tinha outras referências
importantes, mas todas mais intelectuais. Ganhar seria ótimo,
mas o objetivo é participar! Remar é divertido e ser gay
também. Às vezes é difícil? Talvez... mas isso acaba
estimulando a diversão.
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